O típico vento marítimo ocupava-se de caracterizar aquela noite de Verão, quando eu no conforto do quarto e dos lençóis desconhecidos a abri! Não a abri sozinha, nem sequer fui eu que tive o descaramento de a colocar nua de tampa! Mas também a abri! A minha curiosidade,a minha completa falta de ocupação, a nossa sede de saber da sua existência para lá do seu próprio "estar ali" a abriu.E pronto, lá estava ela ali destapada à nossa frente...
Uma caixa normal, cheia de papéis!! Na verdade, a caixa não importava minimamente. Queríamos sim saber quem era portador de tal caixa... e, como consequência ,de tal quarto... Queríamos conhecê-lo sem o conhecer... Fazer parte da sua vida iria ser empolgante! Viver a vida (ou a caixa) de alguém parecia ser algo de uma série televisiva daquelas em que o mistério alimenta as personagens... Queríamos ser também alimentadas... Ali e naquele momento...
No cimo da caixa estava um diário... Devorámo-lo... Muitos poemas em inglês,muitos desabafos (não fosse essa a sua função, profissão de um óptimo ouvinte não pago) e também alguns desenhos... Era uma rapariga! Começámos a fazer anotações quando vimos as cartas e alguns postais,pois a informação já era demasiada e a história começava a revelar-nos uma vida inteira como um livro escrito a caneta permanente...Cheia de borrões sim... Tentávamos encontrar palavras que apagassem aqueles borrões,mas algumas estavam completamente ilegíveis... Chegámos a ver algumas fotografias e alguns objectos e tudo se completava na perfeição...
Mas a história não era nossa, a caixa não era nossa e tudo começou a perder a magia... A magia de algo nos pertencer verdadeiramente!
Fechámos a caixa!
Na verdade, as coisas só têm valor quando vividas...por nós! Posso ter a minha vida numa caixa,posso mostrá-la a toda a gente,mas só o meu olhar sobre ela é que me fará recordar o que lá não está, o que ela representa, a vida invisível que só me colori totalmente a mim!
Aprendi isto quando abri a de alguém! Certamente ela estava ali não para me contar a sua história,mas para me contar a minha!
Nunca mais a abrimos!
